De Luís Ventura Esteves a Nilza da Mata: os 100 anos de poder, política e transformação de São Sebastião do Passé

De Luís Ventura Esteves a Nilza da Mata: os 100 anos de poder, política e transformação de São Sebastião do Passé

Uma viagem pela história dos homens e mulheres que governaram o município, pelas disputas que marcaram sua emancipação, pelos personagens que construíram a vida pública sebastianense e pelas memórias que não podem desaparecer.

Reportagem especial | Redação O RADIÃO | 12 de outubro de 2026

Um século que começou com uma disputa pelo poder

Há exatamente cem anos, São Sebastião do Passé iniciava oficialmente sua trajetória como município autônomo. Era 12 de outubro de 1926. Naquele momento, uma comunidade que durante décadas estivera subordinada administrativamente a São Francisco do Conde passava a escrever sua própria história política.

Mas a emancipação não nasceu apenas de um desejo de independência. Por trás daquele acontecimento existiam lideranças locais, interesses econômicos, disputas eleitorais e articulações com o governo estadual.

No centro dessa história estava o coronel Luís Ventura Esteves, reconhecido como primeiro intendente do município.

A história oficial da Prefeitura relaciona a emancipação à influência política de Ventura Esteves e à sua proximidade com o então governador da Bahia, Francisco Marques de Góis Calmon. A Lei Estadual nº 1.870, de 19 de julho de 1926, criou o município, cuja instalação ocorreu em 12 de outubro daquele ano.

Luís Ventura Esteves: o primeiro capítulo da política sebastianense

Pesquisa iconográfica do primeiro intendente. A identificação de um retrato histórico precisa ser confirmada em acervo documental antes da publicação.

Luís Ventura Esteves pertenceu a uma época em que o coronelismo exercia forte influência sobre a política brasileira, especialmente nas cidades do interior. As relações pessoais, o prestígio econômico e as alianças com o governo estadual frequentemente determinavam os rumos administrativos.

Segundo uma narrativa histórica local, Ventura Esteves mantinha divergências com o coronel Manoel Duarte de Oliveira Júnior, liderança política de São Francisco do Conde. A disputa teria se agravado durante o processo eleitoral de 1926, levando um grupo de moradores a procurar o governo estadual.

A tradição histórica relata um episódio curioso: inicialmente, o grupo teria cogitado a anexação da localidade a outro município. Entretanto, o governador Góis Calmon teria sugerido uma solução mais ambiciosa: a emancipação.

Um abaixo-assinado encaminhado ao Legislativo estadual teria contribuído para a criação do novo município.

Esse relato aparece em registros memorialísticos locais, mas alguns de seus detalhes ainda precisam ser confrontados com documentos eleitorais e correspondências oficiais de 1926.

O primeiro intendente exerceu a administração de 12 de outubro de 1926 a 4 de novembro de 1930, segundo a cronologia histórica consultada.

O cargo de intendente correspondia à chefia do Executivo municipal naquele período. A denominação atual de prefeito consolidou-se posteriormente.

A importância de Luís Ventura ultrapassou sua passagem pela administração. Seu nome permanece na Praça Coronel Luiz Ventura, no centro da cidade, onde está situado o endereço oficial da Prefeitura.

Antes de 1926: as raízes de uma cidade muito mais antiga

A história sebastianense não começou com a emancipação.

Em 11 de abril de 1718, um alvará régio estabeleceu a Freguesia de São Sebastião das Cabeceiras do Passé. A história municipal registra, naquele período, uma população estimada em 2.600 pessoas, oito engenhos e quatro capelas.

A produção de açúcar e o cultivo da mandioca integravam a economia local. A formação territorial esteve profundamente ligada aos engenhos, à agricultura, à religiosidade e às estruturas sociais do período colonial, incluindo a escravidão.

Em 1880, a freguesia foi dividida em dois distritos, ainda vinculados a São Francisco do Conde. Somente 46 anos depois aconteceria a emancipação.

As datas que contam nossa história

1718 — Criação da freguesia de São Sebastião das Cabeceiras do Passé.

1880 — Reorganização territorial da freguesia em dois distritos.

19 de julho de 1926 — Lei Estadual nº 1.870 cria o município.

12 de outubro de 1926 — Instalação oficial e início da administração municipal.

1988 — Nilza da Mata inicia sua trajetória eleitoral vitoriosa na Câmara Municipal.

2021 — Nilza assume seu primeiro mandato como prefeita.

2025 — Início de seu segundo mandato consecutivo.

12 de outubro de 2026 — São Sebastião do Passé completa cem anos de instalação municipal.

Os 22 nomes que atravessaram cem anos de administração

Um levantamento publicado pelo próprio O RADIÃO em julho de 2026 reúne 22 chefes do Executivo municipal, sendo 20 homens e duas mulheres, distribuídos em 30 períodos administrativos.

A relação é uma referência importante para o centenário, embora a contagem dos períodos deva ser conferida em atas de posse, registros da Câmara e arquivos municipais.

Gestor ou gestora Período registrado

Luís Ventura Esteves 1926–1930

Antônio Ezequiel Portugal 1930–1931; 1943–1945

José Freire Gouveia 1931–1933

Manoel da Silva Ribeiro 1933–1937; 1947–1948

José Nicolau Figueiroa 1937–1941

Moisés Cerqueira de Oliveira 1941–1943

Apolinário Lopes das Candeias 1945–1947

Flaviano Eutíquio de Andrade 1948–1951

José Ferreira Lisboa 1951–1955

Octávio Brandão 1955–1959; 1977–1983

Januário da Silva Ribeiro 1959–1963; 1967–1971

Mário Moniz Pacheco 1963–1967

Ernani de Oliveira Rocha 1971–1973; 1989–1993

Antônio Ribeiro da Silva 1973–1977

Jacildo Pereira Mesquita 1983–1989; 1993–1997

José Valdomiro Pena 1997–2005

Valdemar Henrique Faria de Andrade 2005

Tânia Maria Portugal da Silva 2005–2013

Janser Soares Mesquita 2013–2017

Breno Konrad Meira Moreira 2017–2020

Maria Nilza da Mata Santana 2021–2028, mandato em andamento

Fonte: levantamento histórico do O RADIÃO, publicado em 16 de julho de 2026. Anos resumidos; períodos de transição e substituições não devem ser interpretados automaticamente como mandatos eleitorais completos.

Da República dos coronéis à democracia: as mudanças do poder municipal

A história dos governantes de São Sebastião do Passé acompanha as grandes transformações políticas do Brasil.

Nos primeiros anos, o município viveu sob a influência das estruturas políticas da Primeira República. Em 1930, a Revolução que levou Getúlio Vargas ao poder também modificou profundamente o funcionamento das administrações estaduais e municipais.

Entre 1937 e 1945, durante o Estado Novo, o país viveu um regime ditatorial. A autonomia política municipal sofreu restrições e a escolha dos dirigentes locais não seguia os mesmos procedimentos democráticos de hoje.

O retorno das eleições, a experiência democrática posterior a 1945, a ditadura militar iniciada em 1964 e a redemocratização a partir da década de 1980 influenciaram as relações de poder em todo o Brasil.

São Sebastião do Passé atravessou todas essas fases.

Nesse percurso, alguns nomes retornaram ao Executivo em momentos diferentes. Octávio Brandão, Januário da Silva Ribeiro, Ernani de Oliveira Rocha e Jacildo Pereira Mesquita são exemplos de lideranças que reaparecem na cronologia administrativa.

Esses retornos revelam uma característica importante da política municipal: a permanência de grupos, lideranças e redes de influência ao longo de gerações.

Entretanto, para atribuir obras específicas, conquistas ou responsabilidades a cada administração, é necessário consultar leis orçamentárias, jornais da época, documentos oficiais e depoimentos confrontados com outras fontes.

O período recente: de Valdomiro Pena a Nilza da Mata

José Valdomiro Pena — 1997 a 2005

Governou durante dois mandatos consecutivos, atravessando a passagem do século XX para o XXI. Seu período constitui um capítulo importante para pesquisar a expansão urbana e os serviços municipais.

Tânia Maria Portugal da Silva — 2005 a 2013

Primeira mulher registrada na relação histórica de chefes do Executivo. Assumiu em maio de 2005 e permaneceu à frente da administração no período seguinte, até janeiro de 2013.

Janser Soares Mesquita — 2013 a 2016

Representou uma nova alternância na liderança municipal após o período de Tânia Portugal.

Breno Konrad Meira Moreira — 2017 a 2020

Conhecido como Dr. Breno, administrou o município no período que incluiu o início da pandemia de Covid-19, um dos maiores desafios enfrentados pelas administrações públicas contemporâneas.

Maria Nilza da Mata Santana — desde 2021

A atual prefeita foi reeleita para o mandato de 2025 a 2028. É a gestora que conduz o Executivo municipal durante o centenário.

Galeria ilustrativa de pesquisa. Para a versão definitiva do site, recomenda-se substituir por retratos oficiais ou fotografias de arquivo com identificação e autorização de uso.

Nilza da Mata: da Câmara Municipal ao centenário

A trajetória política de Maria Nilza da Mata Santana não começou na Prefeitura.

Os registros eleitorais reunidos pelo Portal Política mostram sua eleição para vereadora em 1988, 1992, 1996, 2000, 2008 e 2012.

Ela também disputou a Prefeitura em 2004 e 2016, sem vencer aquelas eleições. Em 2018, concorreu a deputada estadual, ficando na suplência.

Em 2020, conquistou a Prefeitura com 13.809 votos, conforme o histórico eleitoral consultado. Reeleita em 2024, iniciou seu segundo mandato consecutivo em janeiro de 2025.

Sua presença à frente do município durante o centenário tem significado simbólico: a cidade que nasceu sob a liderança de um coronel da Primeira República chega aos cem anos governada por uma mulher cuja carreira foi construída, em grande parte, no Legislativo municipal.

É uma mudança expressiva no perfil da representação política, embora não signifique que os desafios de participação feminina estejam superados.

O legado definitivo da atual gestão ainda está em construção. Obras, serviços, indicadores sociais, investimentos e resultados administrativos precisarão ser avaliados com documentação e dados comparáveis, para que a história seja registrada sem propaganda nem julgamento precipitado.

A Câmara Municipal e os personagens que não podem ficar esquecidos

A história política de uma cidade não se resume aos prefeitos.

Os vereadores participaram da aprovação de leis, da fiscalização do Executivo e das disputas que definiram os caminhos do município. Presidentes da Câmara, vice-prefeitos, secretários, lideranças comunitárias e representantes de movimentos sociais também tiveram participação na formação da vida pública sebastianense.

Uma pesquisa histórica completa precisa recuperar os nomes das primeiras legislaturas, das mulheres pioneiras na Câmara, das lideranças dos distritos e das famílias políticas que exerceram influência em diferentes décadas.

O centenário também oferece a oportunidade de preservar a memória de servidores públicos, professores, trabalhadores rurais, lideranças religiosas, artistas, comerciantes e moradores que construíram a cidade sem necessariamente ocupar cargos eletivos.

Uma cidade não é construída apenas por quem governa, mas principalmente por quem nela vive e trabalha.